quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Desesperadamente era tomado por uma certeza que aniquilaria todas as suas outras. E pensava no que desejaria com aquilo tudo, o que iria fazer com aqueles bolsos cheios de surpresa. Deixava o vento entrar pela janelinha da cozinha.Deixava o vento sair por todas as outras janelas. Andava descalço pela casa, mesmo sentindo nervoso por sentir as poeiras e o quanto de imundice outros pés trazem da rua. Desesperadamente. Um desespero afetuoso. Um quase destempero. Ia deixando agir pelo seu corpo, sentindo os sintomas, todos os seus efeitos colaterais. E misturava as roupas escuras e as coloridas na máquina de lavar para ver o que ia dar. Detestava mudanças, mas estava começando a gostar. A gostar não. Pensando na possibilidade disso. Deixava o vento da janelinha da cozinha trazer os cheiros dos outros apartamentos. Trazer o piano do andar de cima, trazer as vozes daquelas velhas que sempre brigavam decidindo sobre o que a criança deveria usar. Trazer a sofreguidão do rapaz que sonha que seu time não vai cair para a segunda divisão. Deixar aquele ventinho da janela da cozinha trazer todas as didascálias daquela rotina, enquanto que desesperadamente era tomado por uma certeza que aniquilaria todas as suas outras.

sábado, 24 de outubro de 2009

Tudo em minha volta está recheado de lembranças. Desde do buraco imperfeito da parede para pendurar as cortinas, desde a arrumação dos móveis. Totalmente tomado, impregnado. Tudo em minha volta tem uma marca. Cúmplice e ao mesmo tempo atordoada. A cor das paredes, a disposição dos livros, das tralhas no quartinho de tralhas.Difícil imaginar tudo diferente, difícil imaginar as coisas como são de outro jeito. Difícil imaginar uma janela que não retratará o mesmo quadro que vejo agora, perspectivado. Difícil imaginar os cheiros que continuarão no ambiente, difícil imaginar as manias que serão as mesmas, mas que serão diferentes.Tudo isso por uma outra ótica, pelo lado oposto do quadro. De dentro do quadro, do outro mundo, vendo esse mundo, por sua vez, totalmente perspectivado. Difícil, mas tudo é difícil. E tem que ser difícil, árduo. O importante é viver os dias, as horas e os segundos. O importante é ter vivido toda essa marcação do tempo sem ligar para o tempo. A sucessão de fatos que marcam, que deixam na pele essas lembranças, que ficam do lado de cá da janela e que são lembradas com muito carinho e alegria. Fazer da vida um mar azul de água quente, que recebe e conforta e não que congela e repele. Mar azul de água quente que será por toda a vida quente, que apresenta algumas ressurgências, algumas correntes de água fria, mas logo depois esquenta de novo, trazendo paz e tranquilidade. Quando esfriar não é muito pedir um barquinho para fugir das águas-vivas que vem com a correnteza.
Tudo em nossa vida é recheado de lembraças e só a gente sabe disso, mais ninguém. Ninguém reconhece a importância do mínimo que é um montão na nossa vida. Se não tiver uma janelona grande, assim, assim... a gente improvisa com o buraco da fechadura,que seja, mas é preciso olhar o quadro do outro lado. Seja uma pintura impressionista, ganhando distância para ter noção do todo, seja um quadro pequeno, enclausurado dentro de uma redoma de vidro, protegido, mas recheado de passado. Dificil imaginar muita coisa, mas imaginamos. E quanta vida ainda, que é enriquecida com história e fantasia e dia-a-dia e muito mar quente de água clara, transparente, vendo o pé na areia e peixinhos nadando em companhia.
As horas não passam para as pessoas felizes. Que cruel ironia. Lástima. Felicidade é algo como conquista. Os ponteiros parecem entrar em greve. Zoam de mim, brincam na minha cara. Parece que quanto mais quero, mais eu afasto qualquer possibilidade. Queria ser indiferente. Se sou, tenho certeza que me cobraria mais paixão e não aceitaria isso. Me conheço e por isso tenho mais medo. Felicidade rima com ansiedade e isso não é nada bom. Quero viver o momento. O aqui,o agora é essencial. O devir, o corpo, o espírito. E olha que estou feliz, mas fico pensando na frente, até quando a felicidade irá durar. Durará sim, farei promessa.Três voltas no quarteirão sem pisar nas linhas, aceitar aqueles papéis de propaganda que distribuem na rua durante uma semana(seja os de tarot ou seja aqueles planos de saúde perguntando se você já viu homem grávido) e não brigar com o trocador do ônibus, que nunca tem troco.
Sim, sim.
Farei. Promessa

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Eu havia adormecido...só uns poucos minutos.Parecia ter sido horas...horas.O suficiente para o meu rosto ficar ardendo pelo sol.Acordei e não me reconhecia. Não sabia nem onde estava, até que ao fundo eu ouvi uns gritos...De gaivota! Isso, eram gaivotas.Olhei para o lado pra ver se você estava e vi somente o livro que você estava lendo. Ninguém leva Proust para ler na praia. Certo que fomos em busca do tempo perdido.Sim, estávamos assim...meses que não separávamos um tempo pra gente e a gente precisava de...
Então vi o seu livro aberto, vi seus óculos escuros, seus chinelos, sua bolsa.Tudo teu, exceto você. Queria te mostrar aquelas duas gaivotas loucas que brigavam feito gente, feito a gente. Podia até imaginar o que elas diziam uma para a outra.Ri, me diverti sozinho.Imaginei eu, imaginei você...os dois, discutindo até qual caminho é o melhor pra chegar em casa. Estamos sempre certos! Estamos sempre errados!
Então chamei seu nome e parecia estar tudo deserto...Chamei seu nome várias vezes e ele foi batendo nas ondas, nas rochas, na areia quente...
Chamei tanto seu nome que até os gritos das gaivotas pareciam chamar por ele também, depois fiquei rouco, minha garganta doeu e fiquei mudo. Depois me lembrei daquela correnteza, que disseram no hotel pra gente tomar cuidado...

quinta-feira, 21 de maio de 2009

“...O senhor é tão moço, tão aquém de todo começar, que lhe rogo, como melhor posso, ter paciência com tudo, tudo o que há para resolver em seu coração e procurar amar as próprias perguntas como quartos fechados ou livros escritos num idioma estrangeiro. Não busque por enquanto respostas que não lhe podem ser dadas, porque não as poderia viver. Pois trata-se precisamente de viver tudo. Viva por enquanto as perguntas. Talvez depois, aos poucos, sem que o perceba, num dia longíguo, consiga viver a resposta....”

Gelei. Parei nesse trecho do Rilke... Paciência...palavrinha cruel, que não nos dá certeza de nada, mas ao mesmo tempo ferramenta para a sabedoria. (Nunca poderia escrever como esse cara.)
Constumava dizer que precisava de um Sigmund de bolso, mas depois percebi que para ele tudo se encaixava num mesmo balaio, que tudo se justifica por uma patologia e que tudo vem na verdade de um verdadeiro complexo de Édipo. Como se não bastasse o coitado ter furado os próprios olhos como forma de punição.
Acredito que ter um Rilke é muito mais completo e mais pessoal. Muito menos analítico e mais vida. O meu Rilke de bolso precisa de poucas palavras, e com isso me apresenta toda a sua dialética. Meu Rilke de bolso é doce e sempre fala no diminutivo, dando ainda mais a sua impressão pessoal com todo o seu carinho. Diz sempre assim... “neguinho”...quando começa falando alguma coisa comigo. É um ser atemporal, é um ser avant garde e que possui muito ensinamento. Mas aquele ensinamento que não é moralizante, mas que conforta e que repousa a dúvida e que permite outros sentidos. Meu Rilke no papel morreu em 1926 e escreveu tudo aquilo que sempre quis escrever, que sempre quis seguir dentro de minha profissão, ou dentro de uma futura pretensão profissional. Meu Rilke de bolso é a alma simplificada do autor, que me diz no pé do ouvido a importância da vida, de todos os seus gêneros de todas as suas especificidades. O nosso to be or not to be está no nosso âmago, já dizia Rilke a Franz. O meu de bolso faz eu perceber que âmago é esse, que centro é esse. Não é o centro de qualquer coisa, de uma melancia cheia de caroço, por exemplo. Meu Rilke de bolso eu posso pensar em emprestar. Seus termos: “amore”, “querido”, “neguinho”... não. Descubra a sua própria nomenclatura.
Mas voltando a palavra que gela: Paciência. Espero conseguir chegar a esse grau de sabedoria. Enquanto isso vou tentando descobrir o meu centro, o que tem por dentro da laranja. Preciso chamar meu Rilke de bolso. É só esfregar a lâmpada, onde ele dorme.Mas com ele os pedidos são ilimitados, graças a Deus!

quarta-feira, 20 de maio de 2009

para Joana Rafael

enquanto desejo que o novo dia chegue vejo o relógio verde na parede marcar horas inexistentes relógio que marca um tempo que não existe e com isso meu dia ganha dimensões irreais e então retorno ao Forster e retorno ao Mozart e retorno ao Stravinsky vistei Stravinsky em seu túmulo frio em S.Michele perto de Murano pegando um vaporetto em Fondamenta Nuove junto com Phill coleguinha inglês veneziano de cinco dias tento me ocupar com coisas reais hoje tomei café três vezes sem contar de manhã cedo antes de sair de casa três cafés em lugares diferentes sendo que um foi cappucciono sendo que dá quase a mesma coisa visitei amiga em Ipanema e tratei de velhos temas caidos e foi quando disse que águas passadas não movem moinhos falei se tratando de um velho clichê que se faz presente afinal velhos clichês só são velhos clichês porque falam o que de certa forma esta instrínseco depois tomei café com pão lanche em casa de grande amiga em botafogo também tratando de velhos temas a fim de superá-los reafirmá-los e depois em casa de vizinha cumadre tratando de temas futuros de seu casamento preciso pensar no meu terno pois quero estar bonito pra chorar lá em cima do palco sim um palco onde se realiza o ritual em que sempre choro sábado no casamento de outra amiga era o único homem chorando na igreja ora pois ora sim choro sim por que não acabo de me lembrar que preciso colocar os ácidos no rosto remédio receitado controlado preciso lembrar de tirar de manhã senão mancha a pele comi pão com queijo e me queixei no msn com um outro amigo novo amigo que já considero grande precisava ler Koltès para a aula de amanha mas irei ficar na solidão dos campos de algodão amanhã levanto cedo para trabalhar depois tenho aula depois tenho reunião com Koltès depois deve ter cervejinha o que se torna um alívio grande alívio cômico onde reunimos toda a catarse acumulada preciso recuperar o tempo perdido com isso fico sem respirar também quero esperar o grande dia que qualquer Deus irá fazer com que tudo caia por terra e faça descobrir que o meu dia é igual a de qualquer outro e que não há nada de errado com a marcação das minhas horas que tudo na vida é passageiro que pau que nasce torto nunca se direita que água mole em pedra dura no meu caso tanto bate até não fura que a dor é inevitável que o sofrimento é opcional que não adianta esperar nenhum Godot por que ele não existe qualquer Deus que faça perceber que antes tarde do que nunca que antes que o mal cresça corta-lhe a cabeça que a palavra é de prata que o silêncio é de ouro que contra fatos não há argumentos que com o tempo tudo se cura que devagar se vai longe e que ele Deus qualquer escreve certo em linhas tortas

segunda-feira, 18 de maio de 2009

É preciso colocar um ponto final nisso!
Essa cantora já está rouca.

Como se não bastassem as noites, os meus dias...todos os segundos, minutos....Horas!
É preciso colocar um ponto final nisso!
Nem que para isso seja preciso quebrar todos os copos, riscar todas as paredes, marcar todo o meu corpo...
É preciso tanta coisa.
primeiro: aterrar o abismo entre a prática e a teoria...

terça-feira, 12 de maio de 2009

Tratando de coisas sem importância. Enquanto ainda tenho tempo sobrando. Falta pouco, mas ainda tenho tempo. São horas suspensas. O que existe é o antes e o depois. Esse tempo de agora é transitório, onde me preocupo em demasia, me tensiono e vivo com dores nas costas. Esse meiozinho de tempo, onde vivo com mais responsabilidade. Toda hora vejo o relógio verde na parede! Penso em diversas coisas, mas nada muito novo. Qualquer dia desses descubro uma nova formula matemática em meio à tanta coisa, tanto tempo parado.
Olho o relógio verde!
E é você que alimenta meu tempo perdido.
Eu brigo com você o tempo todo. A gente se implica, se irrita. Cada um a sua maneira. Cada hora um é vítima, cada hora um é algoz. Mas não consigo viver sem você. Queria implicar menos. Queria me irritar menos. Penso que é impossível
viver em condição diferente. Faz parte da nossa natureza, cobrando atenção dessa forma.
Não consigo imaginar nada de outra forma. Não consigo imaginar um dia diferente. Talvez por isso, na sua ausência eu demore tanto tempo para dormir, pensando em muita coisa que está fora da nossa verdadeira forma.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Fragmentos de um discurso amoroso

Título:
Direção:
Dramaturgia:
Elenco:

Baseado em fatos reais, que aconteceram de verdade.

Ou será que não?

Memórias de guerra!
Memória, fato, invenção!


Hoje eu estava pensando em mudanças. Dessas que acontecem nas nossas vidas, à medida que a gente cresce. Pensei na minha grande mudança. De pensamento, de postura. Que de fato aconteceu há pouco tempo. Coisa de um ano para cá. Na verdade uma primeira etapa dessa mudança se deu entre meus 20 e 21 anos. Não digo que eu era imaturo antes disso. Na verdade eu sempre fui muito maduro, durante toda a minha vida. Hoje sei que não vou conseguir dormir direito. Pensei em ler um pouco, ver o filme do Truffaut, mas resolvi escrever um pouco aqui. Tenho medo de mudanças. Sempre tive. E agora eu temo ainda mais.
Tô com medo da sua grande mudança. Dos seus vinte e poucos anos que estão por vir. Tô com medo de te perder, em meio a tanta bobagem que a gente implica com o outro. Mutuamente. Se eu encarasse a mudança como algo essencial, primordial, acredito que toda essa insegurança não aconteceria.
Mas mudar é um fato. Mesmo eu não encarando, eu no fundo acredito sim na importância desse fato.
Estou escrevendo isso no meu caderninho preto para deixar registrado essa minha revelação que começa a se revelar. Tudo vai começar a se iluminar a partir de então. Espero.
Espero que as suas mudanças nos seus vinte e poucos anos te tragam muita iluminação. Espero estar perto e acompanhar essas mudanças. Espero que você não perceba que eu posso não fazer parte delas. Espero que eu faça. Mesmo.Espero ser, de fato, a sua revelação. Na verdade nós nos revelamos juntos. A cada dia, cada segundo. E a gente cresce , e fica deste TAMANHO...
Revelar-se.
No final a gente descobre que tudo está em mudar.

Ser mais e menos muita coisa, a fim de nos revelarmos cada vez mais.
O mais importante: amar e conseguir mostrar isso.
Compartilhar emoções, sentimentos..vida!

Hoje aprendi muita coisa. Algo sobre ditongo crescente, vogais e semi-vogais
Eu te explico!

quarta-feira, 8 de abril de 2009

segunda-feira, 6 de abril de 2009


16 de fevereiro de 2008

Quero sentir muito mais que isso. Quero falar outros idiomas, porque meu inglês não se sustenta. Já comecei a aprender francês e alemão e fiquei apenas no começo. Só me lembro de comme ça va e ich liebe sie. Sou ansioso e muito inquieto. Quero tudo na mesma hora. Quero resolver todos os problemas, assim, ao mesmo tempo. Depois que os resolvo fica um vazio, novamente uma inquietação, e benzadeus, outro problema. Não consigo viver sem, não consigo viver sem me preocupar. Quero assistir todos os filmes que comprei e que estão na minha prateleira. Só compro filme que eu já tenha visto um dia, mas raramente eu os revejo. Quero ler mais literatura brasileira. Vergonhoso nunca ter lido Machado com mais afinco. Comecei Clarice e ainda estou capenga nas primeiras páginas. Quero terminar minha faculdade e começar meu mestrado. Ainda não defini o que fazer, mas quero morar em Nova Iorque. Quero viajar mais. Quero conhecer outros cantores. Gosto de fruttare de coco, apesar de ultimamente ter comido mais porque quero achar o ipod no palito. Adoro doce, mas quando como fico logo enjoado. Adoro frutos do mar, menos marisco, porque acho nojento quando limpam o bicho. Tiram uma parada preta que parece cocô, acho que é. Adoro camarão, mas sem casca. Se sinto um pedacinho que seja me dá vontade de cuspir fora. Detesto cebola. Detesto pimentão.Não gosto de emprestar livro nem dvd, é melhor nem me pedir. Gosto de falar ao telefone e de entrar no orkut dos outros. De ver recado e scrap alheio. Fico extremamente irritado quando aparece aquela mensagem dizendo que o conteudo foi definido como particular pelo dono, proibindo a sua visita. Queria morar na Urca e ter uns três dachshunds.Não trabalhar nunca nos finais de semana e nem nos feriados. De conseguir ir a São Paulo pelo menos uma vez por semestre. O ideal seria de três em três meses. De gostar de fazer exercício físico. De ter tempo para voltar a fazer natação. De reunir os amigos toda semana. De aprender a tocar um instrumento, piano ou violino. Não gosto de arrumar guarda-roupa. As roupas podiam sair da corda já passadas. Não gosto de cozinhar só para mim.Queria comer fora todos os dias. Queria não ser fresco com comida e comer de tudo, desde comida indiana e árabe até comida nordestina. Quero comprar um aquário de alga salgada e colocar um monte de peixinhos. Gosto de família, queria que eles morassem comigo numa casa bem enorme. Gosto de Natal, mas detesto ano novo. Gosto de cinema e quero ver todos os filmes ao mesmo tempo. Queria voltar a atuar, mas não tenho paciência com atores. Quero continuar a escrever, mas sinto minha cabeça pesar e doer e a memória fugir. Exercício diário, pontual. Tenho dores nas costas por causa da minha postura e não gosto de água gelada, mas, ultimamente, não tenho tomado banho com água quente, dizem que é melhor para a saúde água fria. Detesto barata e isso é coisa de família. Não mato barata. Fico travado diante de uma, e não sei como agir. Quero acordar mais cedo. Dormir mais cedo. Voltar a caminhar aos domingos, fazer novos amigos e amar mais os atuais. Gosto de comprar tudo parcelado, mesmo que eu tenha o dinheiro para comprar a vista. Gosto de cartões de crédito. Sempre estão me ligando e oferendo um novo, ou aumentando meu limite. Gosto de presentear os amigos com livros. Tinha um tempo que o Rilke era um clássico, agora tento ver o que realmente tem a ver com o presenteado. Adoro o Rilke e gostaria que todos lessem, por isso que sempre dou de presente. Gosto de tênis, sempre quero comprar um novo. Gosto de apelidos carinhosos, apensar de o único que pegou mesmo foi na escola quando me chamavam de choquito, por causa das minhas espinhas. Eu detestava. Gosto de ter saudades. E de chorar. E de escrever coisas bonitas para pessoas queridas. Não consigo sossegar enquanto não consigo me lembrar o que certos cheiros me lembram. Cheiro que me lembra praia com chuva, cheiro que me lembra pequenas cenas, pequenos detalhes...
Gosto de tanta coisa. Quero tanta coisa, quero sentir muito mais que isso.

quinta-feira, 26 de março de 2009

Estava pensando em mudanças. Em revelações. Em iluminações. Joaninha possui asas. Elas são pequenas, como seu corpo, mas batem freneticamente. Joaninha, você consegue voar. E são bichinhos preciosos. Faz tempo que não vejo joaninhas. Me lembro que quando eu era criança eu cuidava de algumas como meus bichinhos de estimação. Ela voava. Parava na minha mão e fazia cosquinha. Durante alguns segundos, no máximo um minuto somente, ela era minha. Joaninha. Elas são raras. Estava hoje pensando em mudanças, em revelações, em iluminções. Um imã em minha geladeira me faz lembrar sempre disso: "tudo está em mudar" (Colette). Não sei que diabos é ou foi Colette, mas sempre detestei essa frase, carregado de um temor infundado, provocado por uma coisa que não sei. Talvez um lance espiritual, sei lá. Mudar sempre veio acompanhado de unhas roídas e desespero latente. Essa frase nunca me convenceu. Mas hoje estava pensando em...nessa tríade que sempre me deixou de cabelos em pé, e, de fato, começo a pensar de forma positiva. Mudar-se, revela-se, iluminar-se. E também, permitir-se. Esse último como uma espécie de D'Artagnan...sim, afinal ele também é um dos mosqueteiros!
Permitir, mudar, revelar, iluminar...
Necessariamente nessa ordem!

quarta-feira, 11 de março de 2009

*Ela:

Quero que você seja como você é. E do jeito que você seja, seja o jeito que eu sou. Seja assim, como você costuma agir. E eu, não serei nada mais além de mim. Serei eu, em toda a minha perfeição e imperfeição, passionalidade e impaciência. Comunhemos isso. Seremos dois em um. Ontem tudo pareceu perdido e eu escrevi isso para você, na esperança de encontrar o que eu não sabia. Me apaixono a cada dia com a possibilidade de me apaixonar novamente. Desse jeito seu, só seu. Da sua voz calma, tranquila. Do seu jeito engraçado de falar com suas maozinhas.De olhar no olho de forma doce e eu perceber seus olhos de azeitona.É isso! Quero que você seja como você é. Sem falsificar nada. Sem esconder nada. Porque no futuro é muito mais estranho descobrir aquilo que ficou oculto, mesmo num sentimento sincero, feliz.
Quero que você venha me buscar e me leve para onde você quiser. Mas agora não dá. Tenho pilhas de trabalho e a noite fica muito tarde pra você. Amanhã você precisa levantar muito cedo. Enfim, paciência. Mas queria te conhecer melhor, e isso aqui tá muito pequeno diante tanta aflição e ansiedade. Mas eu sou assim, não adianta. Irei honrar nosso compromisso. Serei sempre eu, e irei expor todas as minhas mazelas. Juro que deixaria tudo como está. Juro que iria agora, com a roupa do corpo, nem fecharia as portas, nem apagaria as luzes. Iria onde você estivesse, mesmo que fosse preciso atravessar a cidade alagada, mesmo que fosse preciso pegar a ponte aérea. Atravessar pontes, lodos, dunas e areia movediça.

(começa a sair fumaça branca do teto. ela começa a falar tudo mais rápido)

Ficaria aqui te escrevendo toda uma poética, mas nesse caso não é possível te entender, nos entender, através de todo um sentimento normativo. Sei que agora me sinto diferente.Não é uma febre, uma dor de cabeça, ou cãimbra em todas as partes do meu corpo. É tudo isso junto e um monte de coisa que não sei o que é.
Ainda é cedo para amanhã. Prometi te ligar. Quero que o amanhã chegue, tempo. Quero dormir para o amanhã chegar logo. E dormir e sonhar e lembrar e profetizar tudo aquilo que acredito que seja do nosso domínio, do nosso direito. Quero tudo aquilo que esteja em meus sonhos, por mais surrealistas que sejam. Quero ser clichê, melosa, idiota, metida a poeta. Quero ser eu, em todas as minhas instâncias.

(ela adormece. cai a luz)

*(Rafael e/ou Joana)

segunda-feira, 9 de março de 2009

quinta-feira, 5 de março de 2009

Comecei escrevendo que gostaria de recomeçar tudo e corrigir o que foi construído errado. Segundos depois apaguei. E refutei a minha própria idéia. Não. Nada pode ser reparado. Tudo foi como deveria ser. Seguindo a rotação do tempo. Seguindo a translação das horas. Cada ponto. Cada vírgula. Cada exclamação. Foram tantas durante todos esses meses. Aleluia pelas palavras construídas de forma cuidadosa, arrependimento por coisas ditas sem pensar. Quero fazer de cada dia um novo dia. Descobrir uma faceta. Descobrir novos significados, novos sinônimos para essa palavra..amor. E com isso redimensionar a minha crença, que anda descrente no meio desse turbilhão de sentimento.
Vamos falar de: sentido!
Falar do passado.
Falar do que está fadado.
Falar de tantas coisas,
mas que no fundo só faz recordar, reviver.
Falar de coisas que tento esquecer.
Esquecer, sem esquecer...entende?
Esquecer para depois poder lembrar...
é um tanto confuso, mas acredito que você me entende.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Teve dia numa festa que comi azeitona preta pensado que fosse brigadeiro. Morto de fome o garçom não passava na nossa mesa.
Teve dia que fui na padaria. Na volta vi o carro da minha tia. Fui correndo ao encontro de meus primos. O saco rasgou e caiu todo o pão no chão. Não sei porque me mandavam comprar pão naquela padaria, mesmo depois do vizinho ter achado uma meleca de nariz dentro do pão.
Teve dia que eu minha irmã achamos aquele ovinho do kinder ovo no chão. Aquele ovinho que vinha dentro do chocolate com brinquedo. Eramos viciados naquilo. O que a gente tinha achado não era de brinquedo, mas tinha umas coisas ilícitas dentro, coisas que eu e minha irmã não conhecia. Ainda bem que nós eramos crianças, senão iriamos entrar na faca...
Teve dia de praia até ficar preto, torrado, durante todo o verão.
Teve dia de excursão para o jardim zoológico.
Teve dia de patins na rua. Teve dia de bicicleta. Aprendendo.Atropelando velhinhas.
Teve dia de teatro. A Tempestade. Duende, de um ensaio apenas.
Teve dia de ganhar dinheiro fazendo teatro. Chapeuzinho Vermelho.Criança, sem saber nem o que era teatro...
Teve dia de gastar dinheiro fazendo teatro. Gastar bastante dinheiro.Mas teve dia de prêmio.
Teve dia de Papai Noel.
Teve dia de amigo indo embora, assim, indo embora....assim, assim...
Teve dia de decisão...te mala com tudo dentro. De mala com livro, roupa e escova de dente, tudo junto.
Teve dia...tiveram dias...aqueles dias, aquele dia.
Teve dia de pescaria. De pegar peixe e ter nojo de tirar do anzol.
Teve dia de primeira literatura.
Teve dias de filme a tarde, depois do colégio. De Calígula, que era um dos poucos filmes que não haviamos alugado naquela locadora, que só tinha filme dublado.
Teve dia de vento. Vento frio. Pedalar de bicicleta contra o vento, frio. Sinusite.
Também pedalar de bicicleta, no “museu”, em dia de chuva. Pneu careca, deslizante, quase tombar com ônibus.
Teve dia de “pizza da vovó”, marca fajuta. Laranjeiras.
Teve dia do primeiro contato. Conhecimento inicial. Terreno desconhecido.
Teve dia de cinema. Tamanquinhos coloridos com miçangas.
Tiveram dias, de anos. De conhecimento junto, de alegria. De crescimento.
Teve dia de conhecer um monte de gente, mas de uma gente especial.
De rir de tudo junto. De viver tudo juntos.
Tiveram dias de bons meses. Felizes
Tiveram dias de tempestade, mas sempre de calmaria. De profunda calmaria.
Teve dia de dar sustos vendo filme de terror.
Teve dia de fumar na janela vendo a lua.
Teve dia de identificar a lua minguante da crescente. De parar para perceber em meio a tanta correria.
Teve dia de acordar cedo e tomar café no Parque Lage. De descobrir, somente ao chegar, que estava fechado.
Teve dia de cinema. Muito cinema.
Teve dia de vacina, de segurar a mão pois detesta agulha.
Teve dia dos melhores capuccinos, com biscoito de chocolate.
Tiveram dias de espera. Esperar acordar e dizer que ama. Esperar chegar a noite e também dizer que ama...tiveram dias de apenas dizer que o amor, afinal, até o final, era reciproco.
Teve dia de conhecer a família. De fazer planos e de viver dos planos.
Teve dia de recordar do passado juntos. Do passado recente que mais parecia anos e anos.
Teve dia de passar todos os dias juntos.
Teve dia do saco de sal acabar.
Tiveram dias perdidos.
Terá dias por achar!
procura-se.
atrizes
de não sei quantos até caralhadas de anos
para o papel
principal
do monólogo
de uma atriz só:
A cantora antropomórfica

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Existe um ditado popular que diz que para conhecer uma pessoa é preciso comer um pacote inteiro de sal.
Sei que no dia que o meu primeiro pacote acabou...outras coisas também acabaram.
Sei que agora comprei um pacote novinho.
E ele está apenas começando!

A cantora antropomórfica

Personagem : Ela: >>>>>>>>>>
Mas que raiva. Faço de tudo para criar os melhores momentos, as melhores respostas, afiadas na ponta da minha língua, e....chega na hora....não sou ninguém. Que piada sem graça fui dizer agora...Meu Deus, me belisca..me belisca para eu ter a certeza que essa asneira não tá saindo da minha boca. Vai, apaga...apaga....passa aquele corretivo por cima..Bendito Barthes, maldito Roland....minha língua cheia de ruídos...eu balbucio. Roland, rolandzinho...Devolva-me todo o meu rumor..quero rumorejar como fazia antigamente....
Mas que raiva. Pensei em tudo com bastante antecedência. Ensaiei, gravei, anotei...decorei até em russo o versinho, a fim de, afins..é..é..por fim...afim de você,sem fim,de gravar meu amor por ti, mesmo nessa língua meio rude e aspera. No fim, esqueço que passei as manhãs,as tardes e as noites dos outros dias inúteis que precedem esse aqui, esse dia aqui...essa hora agora, 15:34, que estou aqui...com o texto marcadinho, colocando toda a minha respiração no diafragma. Tenho meu texto ensaiado comigo, olhando no espelho, no banho, no toilet do cinema..em todas as horas vagas, e olha que não faltam horas vagas para você.

(ELA PUXA UM LENÇO DE PAPEL E ASSOA O NARIZ)

Veja só, é ranho....ando muito gripada..Mudança de tempo é assim...Meu Deus! Não acredito que fiz isso. Estupida, estupida...Preparo todo um psicodrama pra conseguir chegar ao meu personagem..respiração...si fu shi pá...si fu shi pá...relaxa, relaxa...nem tudo está perdido. Talvez na viagem narcísica dele ele nem tenha percebido. O que é um ranho, um simples ranhinho, amarelinho no lenço de papel...Si fu shi pá...si fu shi pá...Estou bem melhor..vou começar do começo. É preciso chegar ao ponto...se eu conseguir chegar ao segundo ato, a coisa ganha uma engrenagem...se eu conseguir chegar naquele momento, naquela cena que ensaiei em casa...(RISOS) Aquela parte é divertidíssima...um verdadeiro golpe de teatro...minha mise-em-scene será perfeita. É um momento divino, será a minha glória. Se eu conseguir chegar ao eixo central de minha peça eu consigo fazer com que ele coma na minha mão...(RISOS) Mas...mas antes...mas antes é preciso que eu abra as cortinas...que eu acenda a luz..nem que seja um refletorzinho só, iluminando minha boca,para eu conseguir dizer tudo que ensaiei....se não tiver luz não tem problema...pode ser no escuro, aí sim terei que mostrar todo meu potencial atoral.....mas...mas...se não der para abrir a cortina toda também não tem problema..abre só uma brechinha..assim, de nadinha..de forma que eu consiga chegar o meu braço até seu pescoço, na cena que ele olha para o lago, se encanta com seu encanto – afinal, quem não ia se encantar – e salvar ele de morrer afogado por causa de sua beleza.
Mas que raiva. Eu não consigo. Maldito Barthes, me devolva o funcionamento perfeito da minha língua. Que eu consiga falar tudo que está engasgado aqui, na minha garganta, e não dê nem um sambinha..Mas que raiva. Por que perto dele pareço ser uma total idiota?
A cantora antropomórfica

Personagem: Ela

Diz pra mim que você irá fazer tudo aquilo que te pedi. Que te peço todos os dias. Você me responde que é preciso preparar as coisas e eu te pergunto "por que?", " o que?". Você responde utilizando metáforas culinárias, dizendo que é preciso ter paciência para cozinhar o feijão em panela de pressão, e a minha mente demoníaca viaja para bem longe, e começa a pensar que eu, junto com ela, está dentro dessa panela, fervendo aos poquinhos. Minha mente envenenada. Depois tudo se esvai com seu carinho e afeição, até ela ir longe novamente e começar a pensar demais.
Quero ser objetivo, caso contrário ficarei sempre a mercê de minha mente, autônoma, cruel.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009


A Cantora antropomórfica

Personagem - Ela


Você sabia que eu te perguntaria isso um dia. E você? Não ficou calado, por que? Você sabia o que eu queria ouvir e agora eu ouvi o que não queria. Você ainda encontra ele? Fala com ele? Soube que vocês se telefonam, almoçam juntos...Ahhhh...
isso é um absurdo. O que preciso marcar no meu corpo para chamar a sua atenção? Mas antes um pouquinho daquele remédio que faz a gente não sentir dor. Detesto sentir. Dor. Claro. Mas, sim. Vou marcar meu corpo, depois vou gritar na rua o seu nome. Sim, eu sou maluca. Vai dizer que você nunca soube disso? Depois vou mandar alguém de dar um baita susto na rua, quando eu pegar você e ele naquela esquina suspeita. Sim, eu sou capaz de qualquer coisa. Você não lembra aquela vez que coloquei cabelo no prato do restaurante. E daquela outra que simulei um desmaio para que a velhinha me cedesse o lugar dela no ônibus. Sim, você lembra. Você riu comigo. A gente riu muito. Mas nada comparado as doideras que sou capaz de fazer por você. Você deve achar que eu sou doida. Bipolar. Não, eu não. Doida, eu? Sim...dá cabeça. Ombros. Joelho e Pé. Então, como fica a situação? Se eu fosse esperta eu ia engravidar de você. Ia te prender para o todo e sempre. Mas hoje filho não prende ninguém. Vejo mamãe. Vejo papai. Depois o filho não serve pra nada, já que pro objetivo inicial ele nem serviu. Você sabia que eu ia te perguntar. Por que respondeu? Era preciso fica calado como você faz na maioria das vezes. Diz que eu sou doida e que eu estou inventando coisa. Sim. Eu iria acreditar fielmente.Sim.Eu sou doida e estou inventando coisa. Sim. Continuaria feliz sem ter certeza de nada. Não existe um ditado assim..deixa eu me lembrar...algo com olhos, coração, olhos, coisas que você não sente. Eu tô presa aqui dentro desse áquario gigante. Essas paredes são brancas, tudo é branco. Daqui a pouco vai descer fumacinha do teto. Eu volto a apagar. Eles entram, me dão remédios. Me dão a vacina da sanidade pura. Depois eu acordo e tudo é novidade.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Queria te mostrar
tudo
que
está aqui
dentro da minha cabeça!
carinho, carinho...um monte de coisa
que sai atrapalhada, sem hora, sem pensar
mas, um monte de coisa sincera!

Muito mais.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Os objetos estão se tornando banais. É preciso,urgentemente, descobrir novas terras. O meu velho mundo tá cansado, precisando de força motora e de botóx. Não quero voltar ao objeto Tempo. Já disse que sou fiel a Caio César. Minha revolta foi em vão. Falhei em todas as minhas tentativas em criar meu próprio calendário, imediatista, cheio de soluções.
O tempo é objeto recorrente. Com ele mordo e assopro, e assim a gente vai levando uma vida cheia de turbulências, calmaria e tempestade.
Dias selvagens. É isso. Quero escrever sobre isso. Quero na verdade um monte de golpes de teatro. Quero para mim uma porção de peripécias. Sou eu meu próprio shakespeare, maneirista, avesso a qualquer regra normativa.
Quero sair da abstração. Basta! E começar, enfim, a escrever meu livro de receitas.
Coloque a quantidade daquilo que quiser, no tabuleiro que quiser. E coloque em fogo alto, em fogueirinha de são joão, tanto faz.
Junta tudo;
Livro de receitas em papel de pão.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Ganhei um caderninho preto sem pauta de verdade.
De papel e tudo!

caderno de anotações - 160 páginas - 14 x 21 cm - pólen 80 g/m² - capa em material sintético.

sábado, 17 de janeiro de 2009

Paris, 17 de fevereiro de 1903

(...)"Que mais lhe devo dizer? Parece-me que tudo foi acentuado segundo convinha. Afinal de contas, queria apenas sugerir-lhe que se deixasse chegar com discrição e gravidade ao termo de sua evolução. Nada a poderia perturbar mais do que olhar para fora e aguardar de fora respostas a perguntas a que talvez somente seu sentimento mais íntimo possa responder na hora mais silenciosa."(...)

Rainer Maria Rilke
Como aquele grito que se fez ouvir a milhares de quilometros. Milhares de anos luz. Milhares de bairros, e distritos, e cidades e estados...gritos de felicidade, gritos de socorro. Não se faz ouvir. Grita palavras desconexas, grite palavrões feios e bem cabeludos. Grita poesia, grita em outras línguas, em outros dialetos, em linguagem extraterrestre. Mas é como pedra que joga para o alto. É como manteiga que derrete em temperatura ambiente, mas que endurece quando coloca na geladeira. Fica inutilizável a manteiga dentro e fora da geladeira, é difícil encontar um meio termo, ainda mais no Rio de Janeiro, em pleno fevereiro..sem o intuito de descobrir nenhuma rima. Grita alto, grita mais alto. Milhares de quilometros são como muros de Berlim...grite para quebrar os copos, as janelas, os vidros dos carros...como aqueles cantores de ópera que possuem agudos infernais capazes de estourar timpanos. Grite e reze e comungue e dê aleluia ao que não foi executado pelo ser invisível pelo qual pedes tudo quando se encontra em momentos de profunda solidão. Ser invisível, abstrato, que é atenção de tanta coisa também abstrata que rogamos, que solicitamos com a maior fé e que depois é diluida com as decepções.Grite, grite mais alto, até esgarçar as cordas vocais, até sair um grito seco, calado, um resquício de grito, um grito fino que vai acabando, que vai sumindo...mas grite. Quem irá ouvir, atender, fazer o pedido pelo seu grito? Grite para tudo, mesmo que para o inomimável... Seu grito irá percorrer por fios, de uma extremidade a outra da Terra, dessa imensa terra cercada percorrida por muitos outros gritos. È com extrema alegria que meu grito ainda sai de minha garganta rouca. Quem sou eu? Me pergunta de volta um grito vindo de longe, tão longe que só chegou agora, mil e oitocentos dias depois: quem sou eu? Tudo que vejo, toco, ouço, sinto o gosto e, principalmente, tudo aquilo que é captado pelo meu olfato... Sim, sou capaz de voltar ao tempo, sou capaz de voltar em outras encarnações. Cheiro de felicidade que toma conta dos dias. Cheiro de pão da padaria, cheiro de chuva no asfalto quente, cheiro de maresia que entra pela janela. E com isso escuto muitos gritos, de minha pessoa em outras vidas. De padre e freira, de moça virgem e poeta, de revolucionário e anarquista. E eu continuo gritando, para derrubar todos os muros de Berlim, para derrubar todas as muralhas da China, para , no futuro, eu ouvir a minha voz que ainda não está moldada, nem em vagabundo, em nada, ainda.
Decidi postar coisas antigas do meu outro blog. Não significa que eu não tenha nada a dizer.
Resta muito a dizer.
Apenas
gosto de ver se ainda sou eu.
E sou!
Colocaria mais algumas vírgulas. Colocaria mais exclamações!
Mas ainda sou eu!
Rabiscar. Eita verbo bom. Rabiscar paredes, chão, se possível o teto também. Lembrar de quando era criança; Rabiscar o corpo, com canetinha. Desenhar relógios no pulso. Passar cola na mão e escrever seu nome: NOME Desenhar unhas de vampiro, recortar do papel e colar. Ora, nas unhas, onde mais? Rabiscar, primeiro. Depois desenhar, depois nomear. Depois escrever... Na parede. Com giz. No chão. No corpo, com canetinha, primeiro. Na adolescência, com henna. Depois com tinta, furando a pele. Rabiscando o corpo, escrevendo para sempre. Sem nunca poder apagar.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

No momento estou impossibilitado de escrever...
Qualquer coisa que seja.
Me falta memória.
Recorro ao retrato do artista quando jovem.Afim de... a fim de...por fins, afins!


Estou sem internet e agora estou num lugar qualquer,
que não seja minha cama, meu computador e o calor do meu quarto!


domingo, 11 de janeiro de 2009

La mia prima visita in Italia fu per me una rivelazione

Meus poucos leitores aflitos clamam por atualizações. Então tá! Mas é preciso ser rápido, por ora. Daqui a pouco tenho um jantar na casa de uma amiga, e prometi levar o pesto! No final, afinal, é a única coisa que sei fazer que acho que dá certo.
Faz tanto tempo que não escrevo nada que nem sei se ainda domino a língua portuguesa. Ainda mais agora com essas mudanças drásticas na nossa ortografia. Me esqueci dos acentos, dos agudos, dos cincunflexos. Nunca usei trema e só agora descobri que ela, de fato, existe. E não existe mais. Coitada da trema, excluída para sempre em terreno em que sempre fora esquecida.
Pois bem, ora pois! Vim para dizer algo, mesmo breve. Gosto de cheiros que me lembram coisa, que me levam de volta ao passado, e estava com isso pensando em revelações, sejam elas coisas pequenas do dia a dia ( com hífen ou sem hífen?), sejam coisas que mudam radicalmente com a sua vida. Me lembrei de um frase de Victor Hugo e pensei de fato na minha própria revelação. No meu blog antigo eu havia escrito: "escrevo tudo que um dia eu posso esquecer". Isso seria meu caderninho preto sem pauta, que me acompanha, que é meu rascunho diário para tudo que penso, para todas as minhas revelações, que podem ser óbvias e complexas. Afinal, revelações são pessoais, e o óbvio nunca será tão óbvio para o revelado.
Fu per me una rivelazione. E sinto o cheiro até hoje, que me leva de volta, que me perde no meio da chuva e do frio, que me faz lembrar que cada dia, de fato, é um outro dia! Quando retornei sabia que nada mais seria como era antes!