sábado, 26 de junho de 2010

Ele saiu para comprar pão e deixar todas as expectativas de lado. Sabia o que ia acontecer dali pra frente.Era cedo e ainda não tinha gente na avenida. Preferiu esperar mesmo assim o sinal abrir, para ir naquela padaria longe de casa. E olhava atentamente os azulejos diferentes nas paredes, e pensou em mitologia, em religião, em geometria. E tentava ler de longe a propaganda nova daquela cerveja, adivinhar o número dos ônibus que viravam a esquina, os relógios de rua que marcavam horas diferentes, como se para cada metro existisse um novo fuso horário. Caminhava atentamente com medo de pisar nas formigas que já acordavam dispostas. Já conseguia sentir o cheiro de pão, cheiro de fumaça, e o cheiro de naftalina que vinha do seu corpo. Como se estivesse guardado...e guardado deixaria as suas expectativas. Preferia muita coisa, ao mesmo tempo que não priorizava nada. Pensava que um monte de coisa ia dar certo, mas sempre vinha uma onda...E estava atrás de maré mansa. Sabia o que ia acontecer dali pra frente, mas preferia ignorar...a fim de lidar toda hora com o desconhecido. E iria chorar olhando para o espelho, percebendo os seus olhos ainda mais verdes.E iria pensar em toda a injustiça do mundo. Mas ele tinha um objetivo, e com isso um passo de cada vez. Primeiro o desjejum.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

queria ir remando até chegar em casa.protegendo as luvas, as canelas russas , e os yorkshires de toda a aquela chuva. mas era impossível. o bote remendado de lado, moedas de um centavo...todas para pagar a passagem. papéis molhados.roupas enxarcadas.ônibus enguiçado.resfriado tardio.árvores caídas.tênis furado.guarda-chuva quebrado e luzes que enfeitavam o céu por toda copacabana.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Desesperadamente era tomado por uma certeza que aniquilaria todas as suas outras. E pensava no que desejaria com aquilo tudo, o que iria fazer com aqueles bolsos cheios de surpresa. Deixava o vento entrar pela janelinha da cozinha.Deixava o vento sair por todas as outras janelas. Andava descalço pela casa, mesmo sentindo nervoso por sentir as poeiras e o quanto de imundice outros pés trazem da rua. Desesperadamente. Um desespero afetuoso. Um quase destempero. Ia deixando agir pelo seu corpo, sentindo os sintomas, todos os seus efeitos colaterais. E misturava as roupas escuras e as coloridas na máquina de lavar para ver o que ia dar. Detestava mudanças, mas estava começando a gostar. A gostar não. Pensando na possibilidade disso. Deixava o vento da janelinha da cozinha trazer os cheiros dos outros apartamentos. Trazer o piano do andar de cima, trazer as vozes daquelas velhas que sempre brigavam decidindo sobre o que a criança deveria usar. Trazer a sofreguidão do rapaz que sonha que seu time não vai cair para a segunda divisão. Deixar aquele ventinho da janela da cozinha trazer todas as didascálias daquela rotina, enquanto que desesperadamente era tomado por uma certeza que aniquilaria todas as suas outras.

sábado, 24 de outubro de 2009

Tudo em minha volta está recheado de lembranças. Desde do buraco imperfeito da parede para pendurar as cortinas, desde a arrumação dos móveis. Totalmente tomado, impregnado. Tudo em minha volta tem uma marca. Cúmplice e ao mesmo tempo atordoada. A cor das paredes, a disposição dos livros, das tralhas no quartinho de tralhas.Difícil imaginar tudo diferente, difícil imaginar as coisas como são de outro jeito. Difícil imaginar uma janela que não retratará o mesmo quadro que vejo agora, perspectivado. Difícil imaginar os cheiros que continuarão no ambiente, difícil imaginar as manias que serão as mesmas, mas que serão diferentes.Tudo isso por uma outra ótica, pelo lado oposto do quadro. De dentro do quadro, do outro mundo, vendo esse mundo, por sua vez, totalmente perspectivado. Difícil, mas tudo é difícil. E tem que ser difícil, árduo. O importante é viver os dias, as horas e os segundos. O importante é ter vivido toda essa marcação do tempo sem ligar para o tempo. A sucessão de fatos que marcam, que deixam na pele essas lembranças, que ficam do lado de cá da janela e que são lembradas com muito carinho e alegria. Fazer da vida um mar azul de água quente, que recebe e conforta e não que congela e repele. Mar azul de água quente que será por toda a vida quente, que apresenta algumas ressurgências, algumas correntes de água fria, mas logo depois esquenta de novo, trazendo paz e tranquilidade. Quando esfriar não é muito pedir um barquinho para fugir das águas-vivas que vem com a correnteza.
Tudo em nossa vida é recheado de lembraças e só a gente sabe disso, mais ninguém. Ninguém reconhece a importância do mínimo que é um montão na nossa vida. Se não tiver uma janelona grande, assim, assim... a gente improvisa com o buraco da fechadura,que seja, mas é preciso olhar o quadro do outro lado. Seja uma pintura impressionista, ganhando distância para ter noção do todo, seja um quadro pequeno, enclausurado dentro de uma redoma de vidro, protegido, mas recheado de passado. Dificil imaginar muita coisa, mas imaginamos. E quanta vida ainda, que é enriquecida com história e fantasia e dia-a-dia e muito mar quente de água clara, transparente, vendo o pé na areia e peixinhos nadando em companhia.
As horas não passam para as pessoas felizes. Que cruel ironia. Lástima. Felicidade é algo como conquista. Os ponteiros parecem entrar em greve. Zoam de mim, brincam na minha cara. Parece que quanto mais quero, mais eu afasto qualquer possibilidade. Queria ser indiferente. Se sou, tenho certeza que me cobraria mais paixão e não aceitaria isso. Me conheço e por isso tenho mais medo. Felicidade rima com ansiedade e isso não é nada bom. Quero viver o momento. O aqui,o agora é essencial. O devir, o corpo, o espírito. E olha que estou feliz, mas fico pensando na frente, até quando a felicidade irá durar. Durará sim, farei promessa.Três voltas no quarteirão sem pisar nas linhas, aceitar aqueles papéis de propaganda que distribuem na rua durante uma semana(seja os de tarot ou seja aqueles planos de saúde perguntando se você já viu homem grávido) e não brigar com o trocador do ônibus, que nunca tem troco.
Sim, sim.
Farei. Promessa

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Eu havia adormecido...só uns poucos minutos.Parecia ter sido horas...horas.O suficiente para o meu rosto ficar ardendo pelo sol.Acordei e não me reconhecia. Não sabia nem onde estava, até que ao fundo eu ouvi uns gritos...De gaivota! Isso, eram gaivotas.Olhei para o lado pra ver se você estava e vi somente o livro que você estava lendo. Ninguém leva Proust para ler na praia. Certo que fomos em busca do tempo perdido.Sim, estávamos assim...meses que não separávamos um tempo pra gente e a gente precisava de...
Então vi o seu livro aberto, vi seus óculos escuros, seus chinelos, sua bolsa.Tudo teu, exceto você. Queria te mostrar aquelas duas gaivotas loucas que brigavam feito gente, feito a gente. Podia até imaginar o que elas diziam uma para a outra.Ri, me diverti sozinho.Imaginei eu, imaginei você...os dois, discutindo até qual caminho é o melhor pra chegar em casa. Estamos sempre certos! Estamos sempre errados!
Então chamei seu nome e parecia estar tudo deserto...Chamei seu nome várias vezes e ele foi batendo nas ondas, nas rochas, na areia quente...
Chamei tanto seu nome que até os gritos das gaivotas pareciam chamar por ele também, depois fiquei rouco, minha garganta doeu e fiquei mudo. Depois me lembrei daquela correnteza, que disseram no hotel pra gente tomar cuidado...

quinta-feira, 21 de maio de 2009

“...O senhor é tão moço, tão aquém de todo começar, que lhe rogo, como melhor posso, ter paciência com tudo, tudo o que há para resolver em seu coração e procurar amar as próprias perguntas como quartos fechados ou livros escritos num idioma estrangeiro. Não busque por enquanto respostas que não lhe podem ser dadas, porque não as poderia viver. Pois trata-se precisamente de viver tudo. Viva por enquanto as perguntas. Talvez depois, aos poucos, sem que o perceba, num dia longíguo, consiga viver a resposta....”

Gelei. Parei nesse trecho do Rilke... Paciência...palavrinha cruel, que não nos dá certeza de nada, mas ao mesmo tempo ferramenta para a sabedoria. (Nunca poderia escrever como esse cara.)
Constumava dizer que precisava de um Sigmund de bolso, mas depois percebi que para ele tudo se encaixava num mesmo balaio, que tudo se justifica por uma patologia e que tudo vem na verdade de um verdadeiro complexo de Édipo. Como se não bastasse o coitado ter furado os próprios olhos como forma de punição.
Acredito que ter um Rilke é muito mais completo e mais pessoal. Muito menos analítico e mais vida. O meu Rilke de bolso precisa de poucas palavras, e com isso me apresenta toda a sua dialética. Meu Rilke de bolso é doce e sempre fala no diminutivo, dando ainda mais a sua impressão pessoal com todo o seu carinho. Diz sempre assim... “neguinho”...quando começa falando alguma coisa comigo. É um ser atemporal, é um ser avant garde e que possui muito ensinamento. Mas aquele ensinamento que não é moralizante, mas que conforta e que repousa a dúvida e que permite outros sentidos. Meu Rilke no papel morreu em 1926 e escreveu tudo aquilo que sempre quis escrever, que sempre quis seguir dentro de minha profissão, ou dentro de uma futura pretensão profissional. Meu Rilke de bolso é a alma simplificada do autor, que me diz no pé do ouvido a importância da vida, de todos os seus gêneros de todas as suas especificidades. O nosso to be or not to be está no nosso âmago, já dizia Rilke a Franz. O meu de bolso faz eu perceber que âmago é esse, que centro é esse. Não é o centro de qualquer coisa, de uma melancia cheia de caroço, por exemplo. Meu Rilke de bolso eu posso pensar em emprestar. Seus termos: “amore”, “querido”, “neguinho”... não. Descubra a sua própria nomenclatura.
Mas voltando a palavra que gela: Paciência. Espero conseguir chegar a esse grau de sabedoria. Enquanto isso vou tentando descobrir o meu centro, o que tem por dentro da laranja. Preciso chamar meu Rilke de bolso. É só esfregar a lâmpada, onde ele dorme.Mas com ele os pedidos são ilimitados, graças a Deus!